História da Chef Catarina

A Chef Catarina

Quando ela nasceu, em janeiro de 1977, ainda não havia energia elétrica na Praia Grande. Mas Catarina se lembra bem da sua infância ali à beira-mar:

“Tudo era maravilhoso. Uma das minhas brincadeiras preferidas era a de fazer comidinha. Mas fazer de verdade. Cada amiguinho e amiguinha tinha que pegar escondido na despensa dos pais um pouquinho de arroz, um tanto de macarrão, alho, cebola e óleo… Sim, tinha que ser escondido porque iríamos brincar com fogo. As panelas eram latas de leite em pó. Pegávamos tijolo ou pedras, muitos gravetos e era enorme a vontade de fazer tudo certo, tudo de verdade. Me lembro do sabor… Era o melhor arroz do mundo, com muito gosto de fumaça, uma papa deliciosa, sim, uma papa, porque enchíamos a lata de água para um pequeno punhado de arroz… Me orgulho muito de lembrar dessa época… Quanto siri bom, cozido na lata, impossível esquecer os sabores daquelas brincadeiras!…”

Foi com 15 que Catarina aprendeu a cozinhar, época em que sua irmã Madalena inaugurou uma pequena pousada ali na Praia Grande.Enquanto ajudava na louça em troca de um dinheirinho, a menina observava a irmã mais velha preparando peixes incríveis, assados ou fritos, e pirão, muito pirão… “Chamavam minha atenção os elogios que ela recebia, todos amavam sua comida! Realmente era uma delícia, tudo muito simples, mas muito gostoso! Foi quando descobri que cozinhar era legal, cozinhar deixava as pessoas felizes, ficava feliz quem comia e quem cozinhava também”, conta Catarina, que foi ganhando segurança a ponto de, aos 18 anos, cozinhar para os amigos. Também era ela quem fazia os bolos nos aniversários de família.

A vontade de estudar artes plásticas a levou para São Paulo. Aos 22 anos, tendo que se manter sozinha, foi enfrentar os desafios da cidade grande. O que ela ganhava no emprego não lhe permitiu fazer o sonhado curso. Mas ela reconhece que aquele período, morando no bairro da Pompeia, foi sua “faculdade de gastronomia”. Catarina adorava cozinhar em casa e chamar os amigos, que não cansavam de incentivá-la a abrir um restaurante.

A ideia só começou a ganhar sentido quando, aos 28 anos, já de volta a Paraty, no sossego da Praia Grande, sua irmã Cida lhe propôs parceria numa barraca para vender pastel. “Fiquei horrorizada, vender pastel na praia? Nem pensar”. Mas Catarina pensou e viu que não teria nada a perder, além do orgulho bobo e infantil… “Topei, mas tinha que ser do meu jeito. Sim, sou chatinha e teimosa. Lápis e caderno na mão, desenhei o esboço do que seria nossa barraca. E com a ajuda de minha mãe e meu cunhado, eu e Cida construímos o Quiosque São Francisco.”

Começava então a trajetória desse restaurante, celebrado hoje em dia como um dos mais estrelados da região da Costa Verde. Para Catarina, tudo foi aprendizado e descoberta. E ela gosta de contar.

“Ah, os primeiros clientes, que nervosismo!… Minha irmã chegava até a rezar… De tão apreensiva, ela desistiu no primeiro mês, pediu para eu tocar sozinha. Foi mesmo muito difícil aquele começo. Afinal, eu não tinha experiência nenhuma, a não ser a de cozinhar em casa. Mas no quiosque o ritmo era outro, tudo tinha que ser rápido. E eu sozinha para fazer tudo, atender, cozinhar, fazer caipirinha… O movimento não era muito naquele início. Abri para amigos, que iam falando para amigos, amigos de amigos e aí me vi com um negócio de verdade! Contratei então minha primeira funcionária, uma pessoa mais velha e com experiência na cozinha, o que me levou a aprender mais um pouco…

Um ano depois conheci meu marido, que trabalhava e trabalha ainda com construção. Ele me deu força e incentivo. O restaurante cresceu, ganhou algumas mesas para fora. Além de trazer mais amigos, ele começou a me ajudar nos finais de semana. E aí sim, tudo prosperou. Hoje, tenho orgulho do Quiosque São Francisco, é um lugar mágico, onde eu, meu marido e funcionários fazemos tudo com muito carinho e amor. Fizemos e fazemos a cada dia de trabalho grandes amizades.

Costumo dizer que o Quiosque é a sala de visitas da minha casa, onde todos que chegam são tratados com carinho e respeito, como tem que ser. Uma pena minha mãe não estar mais aqui para ver o que se tornou o São Francisco… Ela, que me ajudou a construir essa história, sabia que daria certo. Mas partiu em paz e feliz, sabendo também que não teria que se preocupar mais com meu futuro, pois eu assumi de corpo e alma esse lugar mágico, onde eu pratico minha gastronomia e me dedico por inteiro ao prazer de ver as pessoas que chegam se sentirem felizes e satisfeitas.”

Inquieta e exigente, a chef não abre mão de ousadias no cardápio e está sempre aberta a novas experiências. Entre cursos e intercâmbios com outros chefs de talento, sua cozinha, hoje, alcançou identidade própria. Navega com suavidade pelo que chama de gastronomia caiçara contemporânea, sem abrir mão de conceitos tradicionais para mesclar ingredientes fresquíssimos e cheios de aroma.